ARQUITETURA DO FUTURO... NOVAS METODOLOGIAS: LIDANDO COM O INESPERADO
Diálogo com Marcia Holland e Andrea Macruz

Se considerarmos as metodologias consagradas do design e da arquitetura, projetar com o inesperado é algo totalmente inovador e até
contraditório. O Portal de Tendências conversou com Andrea Macruz, arquiteta e designer, especialista em 'Arquitetura e Design Paramétrico'
e Marcia Holland, arquiteta, pesquisadora de inovação e professora universitária.

Andrea ficou interessada neste assunto quando estudou na Universitat Internacional de Catalunya (ESARQ-UIC)  e se deparou com uma
disciplina com um nome um tanto provocativo:  'Arquitetura Paramétrica e Generativa'
. Este foi o ponto inicial para uma carreira voltada à
pesquisa da arquitetura integrada à biologia, ciências naturais e exatas. Andrea participou de diversos projetos sobre arquitetura
paramétrica e trabalhou no escritório de Massimiliano Fuksas, em Paris.  Recentemente, expôs seus objetos na MADE/SP (Mercado Arte
Design), no Jockey Club de São Paulo. Nesta exposição, Andrea apresentou seus conceitos aplicados a objetos como luminárias, móveis e
utilitários, dentre outros.

Para iniciar o nosso diálogo, convidamos Marcia Holland para avaliar estes novos conceitos e como poderão revolucionar a forma de se
pensar um projeto. Marcia explica que os momentos revolucionários na arquitetura correspondem às transformações na ciência e na
tecnologia. Na segunda metade do século XIX, a arquitetura com estruturas metálicas permitiu novas linguagens, soluções arrojadas e o
atendimento a grandes desafios e expectativas daquele contexto socioeconômico. Segundo Marcia, '
conversar sobre o futuro, lidar com sonhos é
sempre atraente, mas neste caso é diferente: vivemos uma nova fase na arquitetura e no design, mas ainda muitos profissionais não se atentaram a esses
fatos: novas metodologias, materiais e processos produtivos inovadores e até novas formas de negócios devem ser envolvidos no processo conceitual da
arquitetura. Ainda vemos replicações de  velhas fórmulas de projeto e modelos num contexto o qual num futuro muito breve não mais serão aceitos. A
'linguagem clichê' não convence mais ninguém.'

Andrea, o que é a Arquitetura Paramétrica e Generativa?
A Arquitetura Paramétrica e Generativa é uma maneira completamente diferente de pensar a arquitetura e a sua forma de projetar. É
interdisciplinar e envolve diferentes campos de estudo tais como a biologia, a ecologia, a computação e os modelos matemáticos. É uma
nova forma de conceituar um projeto e ter inspirações para novas concepções arquitetônicas. A Arquitetura Paramétrica e Generativa rompe
claramente os métodos tradicionais de projetação - do início ao fim. É um projeto que usa computação avançada para processar variáveis
complexas - como a própria Natureza.   

Como é a interação entre estas áreas?
Nesta nova visão, a arquitetura, o  meio ambiente e os usuários podem ser vistos como elementos ou variáveis complexas integrados no
processo de projeto. O desafio deste projeto está na visão crítica e repertório do arquiteto em dar coerência aos sistemas de variáveis. Com
esse entendimento, a arquitetura torna-se menos independente dos seus fatores extrínsecos e formais e considerará demandas reais,
levando em consideração suas melhores propriedades intrínsecas e o poder de transformação do espaço. Ao todo, esta nova arquitetura
pode ser caracterizada por uma multiplicidade de experiências e conceitos, considerar o complexo fluxo de informações, os fragmentos da
Natureza ou sistemas naturais desejados, cadeias de códigos, 'morfologia amorfa' (sem um formulário pré-determinado) e a reação aos
Marcia, como fica o confronto entre o futuro e o passado?
Lidar com o inesperado e o aleatório  como componentes de projeto era algo totalmente impensável face  às metodologias e condutas
profissionais do século passado. Hoje, além das motivações ambientais, na maioria dos projetos, o que determina o uso ou não de um  
processo construtivo é a sua pertinência técnica, a viabilidade e, claro,a relação entre custo e benefício. Em geral, a competitividade está
atrelada aos fatores tempo e facilidade de execução. Neste contexto, compreendemos os conceitos plásticos espaciais ligados aos ângulos
retos e a padronização de medidas. O objetivo maior é a otimização dos materiais construtivos, aplicação imediata de conceitos e
componentes estruturais e ainda, um imenso rol de tecnologias aplicadas ao "espaço ortogonal". Portanto, superar o ângulo reto não é
tarefa fácial. Tudo foi construído assim até hoje. A Arquitetura Paramétrica e Generativa rompe não somente com as formas como também
com as tecnologias construtivas. Com o avanço da computação gráfica, a impressão 3D,  a criação de novos modelos e simulações virtuais,
projetos desafiadores não ficam assim tão longe da realidade e, principalmente, da tangibilidade. Sob o ponto de vista da fabricação, novos
processos surgem e com uma velocidade nunca antes assistida. Em 2012, a Broad Sustainable Building inaugurou na província de Hunan o
T30, um hotel cinco-estrelas com trinta andares e 358 quartos – erguido em apenas quinze dias ou a Winsun New Materials que 'imprime' dez
casas por dia.

Andrea, como um projeto de Arquitetura Paramétrica e Generativa pode incorporar o conceito de flexibilidade?
Os projetos arquitetônicos podem integrar muitas variáveis e aceitar diversas adaptações, a fim de induzir a diversidade, atender a
necessidade dos usuários e principalmente, apresentar capacidade de resposta, por meio de novos softwares. Alguns seguindo sistemas
lineares e outros não-lineares, com base em algoritmos evolucionários. Isso é o que faz a Arquitetura Paramétrica e Generativa tão
inovadora: não é pré-definida ou predestinada. Ela simplesmente surge e continua evoluindo ao longo de uma sequência de passos, e não
apenas como um resultado direto de uma circunstância externa.

E quanto ao Fibrous Tower, Kokkugia?
Fibrous Tower, criado pelo coletivo Kokkugia, ilustra vários conceitos da Arquitetura Paramétrica e Generativa e de como serão os altos
edifícios do futuro. Os arranha-céus do futuro serão sustentáveis e que poderão interagir com a natureza. Kokkugia desenvolveu um projeto
que explora as estruturas baseadas em esqueletos fibrosos. Ao contrário do arranha-céu convencional, que tem uma estrutura pesada para
aumentar a estabilidade da construção e o conceito estrutural chega até a sua cobertura, Fibrous Tower foi elaborado com base em
metodologias de algoritmos e com isso, as estruturas tornam-se ornamentais, explorando a ordem espacial através desta lente. Segundo os
arquitetos, o programa organiza uma série de critérios complexos criando as hierarquias estruturais, de estabilidade, além do plano de
necessidades.











Kokkugia. Roland Snooks (Diretor de Design), Robert Stuart-Smith (Diretor de Design) e Juan De Marco.

Marcia, os modelos matemáticos já eram aplicados em projetos?
Os modelos matemáticos já eram utilizados para diversos fins, por exemplo, determinar a forma aerodinâmica de meios de transportes,
auxiliar no cálculos e construções como pontes, viadutos, grandes edifícios, arranhaceus, e ainda, para análise de fadiga e comportamento
de materiais, na construção civil para análise e correção para situações de vento, incidência solar, acústica, etc. A grande discussão desta
nova forma de pensar o projeto de arquitetura é em relação a utilização de meios digitais integrados ao processo de criação e a utilização do
conceito paramétrico. Segundo Celani, “na matemática, parâmetros são valores que podem ser atribuídos a uma determinada variável,
permitindo o cálculo de diferentes soluções para um problema.” Ampliando este conceito, não significa que o design paramétrico  apenas
atenderá as alterações na plástica do objeto ou da arquitetura, mas também outros
imputs podem ser incorporados tais como conceitos
estruturais, conforto ambiental, sistemas complexos de multiusuários resultando num conceito integrado de variáveis e portanto, em
sistemas altamente eficientes. O projeto paramétrico realizado por arquitetos ou designers permitirá inúmeras soluções até as
inesperadas...

Andrea, você aplica estes conceitos nas suas luminárias e podutos. Conte-nos um pouco deste processo.
Sim, aplico. Eu desenvolvo projetos de arquitetura e design baseados em conceitos naturais, paramétricos e generativos. Por exemplo, o
prato foi desenvolvido com um
plugin paramétrico chamado Grasshopper₢ e o software Rhinoceros₢ que é um programa de grande precisão
para modelagem orgânica e inspirada na natureza, ambos utilizados por escritórios como Zaha Hadid, Norman Foster, dentre outros. O
desenho é formado por linhas concêntricas (grid radial) e pontos que atraem e outros que repelem estas linhas. A mudança destes pontos
gera uma alteração em todo o desenho. Assim sendo, por meio da relocação dos pontos, novos desenhos são criados: desenhos
imprevisíveis e complexos, que muitas vezes, seriam inconcebíveis sem a ajuda do computador. Na verdade, este trabalho reflete uma
especulação de uma nova estética que só é possível por causa da tecnologia e da inserção de ferramentas potentes no processo criativo e
não somente na produção...






















Ana Cláudia Azevedo
portal@portaldetendencias.com

Fonte:
Andrea Macruz
www.nolii.com (11) 96834-0552
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